Avião, substituto natural do navio?

 

Esta é uma interessante pergunta que me fiz há alguns anos. Obviamente fiquei contente em pensar sobre ela e tentar desenvolvê-la já que gosto de desafios deste tipo, e quem tem lido meus artigos sabe disso. Não me lembro de já ter visto este assunto abordado, a não ser por mim mesmo há uns seis anos. O navio poderá algum dia ser colocado em cheque pelo avião, após tantos séculos de liderança?

O que me chamou a atenção neste assunto, se é que deve ter tal qualificação, já que a priori parece coisa de algum lunático, é justamente o fato de nunca ter ouvido um pensamento em tais moldes, e acreditar que isso será viabilizado mais à frente. Quantos anos ou décadas? Não sei. Prefiro ficar com a futurologia viável e não entrar no campo da futurologia adivinhatória, mas, obviamente, com certeza, será antes do final da metade deste século.

Os navios estão crescendo cada vez mais, mormente os porta-containers, estando na marca dos 8 mil TEU e, segundo se especula, podem chegar a 18.000 TEU. Embora o tamanho e a capacidade estejam crescendo, pode-se notar que as velocidades continuam a crescer pouco, até em face do tamanho cada vez maior dos navios, atingindo hoje a marca de cerca de 25 knots.

Qual a velocidade que poderá ser atingida no futuro? E quantos portos no mundo poderão recebê-los, principalmente quanto ao calado?

Aqui entram meus delírios acadêmicos especulativos sobre realidades palpáveis. Será que o avião, ao contrário do navio, permanecerá sempre pequeno, com pouca capacidade de carga, sendo a capacidade máxima hoje de 100 tons no 747, e 160 nos novos Airbus para 2005 ? E 120 tons no Antonov A124 e 250 tons no Antonov A225 para os fora de série?

Sem falar no alto preço do frete. Não me parece ser este o caminho que vem sendo trilhado. Há uns 4 anos se divulgou que o consórcio francês, inglês e espanhol trabalhavam num avião de megas proporções, sem especificar o que isso significa. Obviamente este é um termo forte e deverá ser realmente grande.

Que mudanças ocorreriam com o transporte de mercadorias se os aviões, assim como vem ocorrendo com os navios, também desenvolvessem seu tamanho na mesma velocidade e chegassem, por exemplo, a uma capacidade de mil ou duas mil toneladas, ou até mais? Será que um avião desses não concorreria com um navio de 8000 TEU ou mais ?

Estes dois veículos tornam-se equivalentes se levarmos em conta que um navio realiza hoje um round trip, por exemplo para o Extremo Oriente, ao redor de 80/90 dias e para a Europa ao redor de 40/45 dias, enquanto um avião pode realizar estas mesmas viagens à razão de uma e duas por dia, a 900 quilômetros/hora. Sempre lembrando que a velocidade pode crescer muito mais. Afinal o Concorde já voava a 2.400 quilômetros/hora há 3 décadas. Os australianos vêm testando motores para velocidades de 9.600 quilômetros/hora, vislumbrando São Paulo/Tóquio em 3 horas.

Um avião com capacidade de mil toneladas poderia fazer em 90 dias cerca de 90 viagens, isso considerando apenas as velocidades atuais, empatando com este navio citado. Fala-se em cruzar o planeta em 1 hora.

Estando igualados neste quesito, com o navio com mais capacidade instalada e o avião com maior capacidade de multiplicação do seu espaço, ficamos apenas por conta do alto frete, hoje proibitivo para a maioria dos produtos comercializados na nossa aldeia global.

O frete, sem dúvida, tende a baixar extraordinariamente em face da grande quantidade, e porque o custo do avião, assim como qualquer outro objeto, não guarda relação com o seu tamanho, sendo mais barato quanto cada vez maior, em termos relativos. É como comprar um vidro de azeitona de 200 e de 500 gramas, cujos preços não são por exemplo, 2 e 5 unidades monetárias, mas 2 e 3/4.

Que estragos a sua velocidade, principalmente nos atuais tempos de just in time, de estoques cada vez mais baixos, quando não eliminados, ficando a produção por conta dos recebimentos de matérias-primas apenas para a produção, ele provocaria nos modais de transporte mais lentos? O mesmo raciocínio deve ser aplicado para os produtos acabados, sendo vendidos conforme forem sendo recebidos.

O que importa hoje é a eliminação dos altos custos de estoque, do dinheiro parado, e é isso que ele faz enquanto está num navio, fazendo um cruzeiro extremamente caro.

Como se vê, o frete é importante, e deverá cair extraordinariamente, mas outros fatores também importam. Portanto, ao contrário do que se costuma fazer hoje, isto é, comparar os fretes dos dois modas, o que é uma covardia, deve-se, corretamente, comparar os custos desde a origem até o destino, lembrando, por exemplo, a economia na embalagem, seguro, THC, custos de embarque, etc.

Está claro que a navegação aérea poderá não estar confinada a ser um transporte de produtos de alto valor agregado e/ou rapidamente perecíveis, como por exemplo computadores, que são produzidos pentium e chegariam no destino lentium se viajassem de navio. O avião pode se transformar num sério concorrente da navegação marítima, principalmente em face dos constantes e rápidos avanços tecnológicos, e que não são desconhecidos deste setor, muito pelo contrário, onde a tecnologia é o que mais se sobressai.

Não queremos com estes devaneios, mais um vez, colocar em cheque efetivo, nem preocupar a navegação marítima, que aliás é uma das minhas paixões, nem tampouco levantar a bola da navegação aérea, até porque não tenho este poder, mas apenas colocar este palpável assunto, novamente em discussão, já que o julgo digno de nota e pelo menos discutível.

Revista Aviação em Revista

Author: Samir Keedi

-Mestre (Stricto Sensu) e pós-graduado (Lato Sensu) em Administração pela UNIP-Universidade Paulista. -Bacharel em Economia pela PUC-Pontifícia Universidade Católica. -Profissional de comércio exterior desde março de 1972. -Especialista em transportes; logística; seguros; Incoterms®; carta de crédito e suas regras; documentos no comércio exterior; contratos internacionais de compra e venda. -Generalista em várias atividades em comércio exterior. -Consultor em diversos assuntos relativos ao comércio exterior. -Professor universitário de graduação e pós graduação desde 1996. -Professor e instrutor técnico desde 1996. -Palestrante em assuntos de comércio exterior e economia. -Colunista em jornais e revistas especializadas. -Autor de vários livros em comércio exterior. -Tradutor oficial para o Brasil do Incoterms 2000. -Representante do Brasil na CCI-RJ e Paris na revisão do Incoterms® 2010.

Share This Post On

1 Comment

  1. Excelente abordagem! Nao acredito na substituição total. Ha de se considerar a classificacao dos riscos no transporte aéreo. Baixa probabiludade de queda, mal altíssimo impacto. Quanto os Sponsors estariam dispostos a assumir um risco de perda total. Um bom exercício para por o cérebro a trabalhar.

    Post a Reply

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *