Nunzio Qustandi Rofa Quraitem e sua filha UNEF – União dos Exportadores de Frangos

Era 1975, e o Brasil sequer sonhava em exportar frangos. Nem tampouco se transformar no maior exportador de penosas do mundo. O que é hoje, e já há muitos anos.

Ai aparece o Nunzio, que reputamos como um empreendedor extraordinário, e melhor vendedor que conhecemos. Que conseguiria vender gelo para esquimó. Com conhecimento das necessidades de proteína dos países do Oriente Médio, Islâmicos, pensa que o Brasil poderia se transformar num grande exportador de frangos para eles, considerando sua qualidade e forma de criação e alimentação.

O empreendedor que transformou a avicultura brasileira. Que podemos dizer que precedeu o que o Brasil viria a ser, futuramente, no agronegócio. Um exemplo para o mundo, cujo negócio, hoje, alimenta um bilhão de pessoas em todo o mundo.

O Nunzio conseguiu, não sem muito trabalho duro, e com bastante tempo, convencer o Sr. Atílio Fontana, fundador da Sadia, que o Brasil poderia exportar frangos. Que havia, no Oriente Médio, um mercado extraordinário nos esperando. Em que os países árabes precisavam importar proteína, e que o frango era a sua carne preferida.

Com uma caixa de poliestireno expandido, com 14 frangos, com gelo seco para manutenção, debaixo do braço, saiu nosso empreendedor mascate para o Oriente Médio para tentar vender seus frangos.

Com isso, ele introduziu o frango brasileiro e o Brasil no mundo. Estava cumprida a primeira parte, sendo iniciada a exportação. Claro que, com muitas dificuldades iniciais, já que sequer havia transporte de produtos congelados para a região. No primeiro embarque, com muito trabalho, persistência e tempo, convenceu a companhia de navegação Lloyd Brasileiro da necessidade de ajudar, e colocar um navio à sua disposição, mesmo para uma quantidade pequena, e a viagem não sendo economicamente viável.

Foi uma grande luta, segundo o Nunzio. Para o qual ele teve a ajuda do Ministro Antônio Delfim Netto, que encampou a sua luta para tornar o Brasil um grande exportador de frango. Certamente o Lloyd jamais se arrependeu disso. Em especial que ele tinha apenas um navio por ano para o Oriente Médio. Com a Unef, os embarques passaram a ser frequentes.

Dado o passo inicial, o desafio era manter o novo mercado e, claro, incrementá-lo e justificar o otimismo e luta inicial.

Posteriormente, juntou 10 abatedouros de vários estados do sul e sudeste do Brasil, a saber, RS, SC, PR, SP e MG. Empresas de diversas tamanhos, bem discrepantes entre si. Isso não seria problema se a produção fosse uniforme. O que foi conseguido. Isso possibilitou que se tivesse uma marca única para os frangos exportados de todas as empresas. Marca “UNEF”. A Sadia optou por não participar do consórcio e trabalhar sozinha.

Assim, no início de 1977 foi fundada a UNEF, com o Nunzio como diretor superintendente e coordenador, tendo a seu lado, como braço direito e entendido em contratos, o Élio Martins. E localizada no Itaim Bibi, em São Paulo, não só por ser central a todos os abatedouros, mas, por uma opção estratégica. Com aeroporto internacional próximo. Facilidade de receber os compradores árabes. Com as Sociedades Islâmicas que necessitávamos para coordenação dos abates dos frangos, exigidos conforme determinação do Alcorão.

Com poucos anos de operação, o frango brasileiro começou a deslocar os exportadores com quem entramos para concorrer. Iniciando por deslocar o maior, a França, de sua confortável posição.

Flávio Brandalise, da Perdigão, um dos componentes da UNEF e maior empresa do consórcio, foi outra figura exponencial no processo de criação e desenvolvimento do grupo, com participação importante e brilhante, juntamente com o Nunzio. Formaram uma dupla espetacular desde o início.

As exportações cresceram rapidamente, com a UNEF voando. Ressalte-se que ela se colocou como vendedora, coordenadora, distribuidora das vendas aos abatedouros. Atingindo a posição de maior empresa exportadora de frangos do mundo com sua marca.

Mas, jamais se colocou como exportadora, deixando essa tarefa aos próprios abatedouros. Eles produziam, exportavam, contratavam câmbio, ou seja, tinham identidade própria no exterior, como empresas.

A UNEF cuidava também da logística, reservando praça nos navios, determinando quantidade de acordo com a capacidade de cada um, já estabelecida anteriormente, em reuniões frequentes, e os portos de embarque aos abatedouros exportadores. Os portos eram Rio Grande, Itajaí, Paranaguá, Santos e Rio de Janeiro. Bem como dos embarques nos portos, coordenando os vários prestadores de serviços. E de recebimento das cartas de crédito, sua análise, e emissão de toda a documentação para todos os exportadores.

Passado um tempo, as reservas de praça já não davam mais conta. Foi necessário começarmos a afretar navios. Em 1978 o Nunzio viu um anúncio, na França, da Coface, para a venda de dois navios frigoríficos, o Rainbow Reefer e Rainbow Freezer, com capacidades de refrigeração até 25º Celsius negativos, o que precisávamos. Nunzio resolve comprá-los e fala com o Flávio.

Os dois, que estavam de ida para a Europa, resolvem ir também à França para ver essa questão da compra dos navios. Cada um custava US$ 5 milhões e o Nunzio se interessa. Participam de uma reunião com a Coface, e o Nunzio se oferece para comprá-los. Mas, não tinham dinheiro para isso. Convence a Coface, de que não adiantaria eles terem um navio, e não terem carga. Como a Unef tinha carga e não tinha navios, poderia ser um bom negócio para os dois lados. Ao final, compram o navio, com pequena entrada, e um financiamento para pagar em cinco anos.

Com a quantidade de frangos que a UNEF tinha, e os fretes que pagava aos armadores e ao Lloyd, que aproveitava para explorar no frete, seria fácil pagar. E foi o que aconteceu. Com isso, Nunzio e Flávio, particularmente, transformam-se em armadores, colocando os navios à disposição da UNEF, que agora tinha o ciclo completo. Os navios eram administrados pela Flamar, empresa criada pelos dois para cuidar deles. Os dois navios tinham o logotipo da UNEF na chaminé

Em 1982, o Nunzio e o Flávio adquirem a mansão construída a partir do projeto do filme “…E o ventou levou”, extraordinário filme de 1939, situada na Av. República do Líbano, no bairro de Indianópolis, para nova sede da UNEF. Uma mansão de 5.000 metros2 de terreno, com piscina, árvores frutíferas, etc. Infelizmente ela não existe mais. A memória brasileira a transformou em mais um arranha-céu.

O restante é história. Pena, apenas, que esse consórcio, que tirou o Brasil de exportação zero, para 4,8 milhões de toneladas e US$ 9,8 bilhões em 2022, transformando-o no maior exportador mundial, e detendo cerca de 40% do mercado, não teve sequência, não teve sucessores para alavancar outros produtos e empresas. Coisas do Brasil, em que o bom e o ótimo nem sempre são seguidos, não servindo de exemplo.

Para meu orgulho pessoal, participei dessa bela história praticamente do início, desde fevereiro de 1977, cuidando dos embarques, das cartas de crédito e toda a documentação de todos os exportadores. Primeiramente na Deicmar-Haniel, como funcionário exclusivo para a UNEF, e a partir de abril de 1980, como funcionário da própria UNEF. Posteriormente, com o fim da UNEF em 1985, depois de cumprido seu papel histórico, fui transferido para a Perdigão, que assumiu a UNEF, a marca e a casa, para dar sequência ao que já era feito.

Um pouco mais da história da UNEF, e da extraordinária, complicada e inédita logística implementada para entrega de frangos no Iraque, em meio à sua guerra com o Iran, nos anos 1980, pode ser lida no capítulo 11 do nosso livro “Logística de transporte internacional – veículo pratico de competitividade”, 7a. edição 2022, da Aduaneiras, e que faz parte do curso homônimo na Aduaneiras e nas Universidades.

Case logístico para estudo e discussão – A UNEF -Capítulo 11 do livro Logística de transporte internacional (7a. ed., Aduaneiras, 2022)

 

https://www.aduaneiras.com.br/Materias?guid=090162f90a8e3b7de0637f0110acc756

 

“”””” Comentário do amigo Roberto Tórtima, ex-diretor comercial do Tecon Santos Brasil, ora aposentado, no linkedin:

Eu também participei. Em 77 entrei pro Lloyd e acompanhei de perto o desenvolvimento das “ Linhas Pioneiras” , que visavam abrir mercados para nossas exportações e o Oriente Médio era um destes mercados, por conta do então incipiente frango.

Parabéns amigo “””””

Author: Samir Keedi

-Mestre (Stricto Sensu) e pós-graduado (Lato Sensu) em Administração pela UNIP-Universidade Paulista. -Bacharel em Economia pela PUC-Pontifícia Universidade Católica. -Profissional de comércio exterior desde março de 1972. -Especialista em transportes; logística; seguros; Incoterms®; carta de crédito e suas regras; documentos no comércio exterior; contratos internacionais de compra e venda. -Generalista em várias atividades em comércio exterior. -Consultor em diversos assuntos relativos ao comércio exterior. -Professor universitário de graduação e pós graduação desde 1996. -Professor e instrutor técnico desde 1996. -Palestrante em assuntos de comércio exterior e economia. -Colunista em jornais e revistas especializadas. -Autor de vários livros em comércio exterior. -Tradutor oficial para o Brasil do Incoterms 2000. -Representante do Brasil na CCI-RJ e Paris na revisão do Incoterms® 2010.

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2 Comments

  1. caro Samir, conheci a linda mansão da República do Líbano, quando participei de uma reunião com a Perdigão, durante os Estudos da Ferrovia do Frango em SC

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    • Prezado Silvio, bom dia. Excelente 2024.
      Que maravilha. Aquilo era o paraíso.
      Desculpe o atrao na resposta.
      abraços

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