Terminais intermodais

 

Temos dito sempre, em nossas aulas, que o transporte e a logística brasileira deixam muito a desejar. Que nossa matriz de transportes é muito ruim, das piores do mundo. E comprovado por estudos internacionais. Baseada no transporte rodoviário, com cerca de 60% da carga.

A culpa, obviamente, não é desse modo de transporte. Que é maravilhoso. Em que sempre dizemos que, se tivéssemos que deixar na terra apenas um modo, eliminando-se todos os demais, seria ele. Nenhum outro sem qualquer dúvida, pois é o único auto-suficiente. Que tem a capacidade de ir buscar a carga na origem. E entregá-la no destino. Obviamente não em todos os lugares, que isso é impossível. Mas, na maioria, e em todo o mundo.

Nenhum outro modo de transporte tem essa competência. Nunca vimos, por exemplo, ainda que em raras ocasiões, um navio indo buscar a carga na origem. Nem distribuindo cargas por bares e restaurantes. O avião tampouco, e nem o trem. A menos que estejamos nos referindo a barquinhos ou helicópteros, mas isso não vale. Quanto ao trem, em algumas pouquíssimas ocasiões, até pode realizar a tarefa de coletar a carga na origem e entregar no destino final. Mas, todos sabemos que estes modos precisam do caminhão para servi-los.

Assim, não há que duvidar da capacidade desse veículo. Então qual o problema com ele e se critica tanto? O problema não está com ele como visto. O problema está conosco, os usuários. Cuja preferência é por ele. Em que os demais modos, em conjunto, abarcam os restantes 40%. Cruzamos o país com ele. Levamos uma carga do sul ou sudeste ao norte ou nordeste com ele. Que é, sabidamente, como temos falado e escrito, o transporte mais caro que existe. Mais caro do que o aéreo conforme nossos argumentos, o que não é o caso de discutirmos agora.

O rodoviário é o equipamento, por natureza, para distribuição de cargas, para pequenos trajetos e auxiliando os demais modos. O ideal, quando temos cargas para além de uns 400 ou 500 quilômetros, é o transporte ferroviário ou o hidroviário. Nesse caso, o transporte fluvial, em vias interiores, e a cabotagem, na costa brasileira. Cuja costa e quantidade de rios são dos maiores do mundo. Em que o transporte rodoviário não faz tudo sozinho e nem deve. Mas age como parte do todo. Como auxiliar dos demais. Conforme nossas colocações, de vedete do transporte. Aquele que está a serviço dos demais, ou seja, fazendo logística e não meramente transporte. Que são coisas diferentes.

Situação em que, seguramente, os transportadores teriam mais ganho. Todos sabem que quanto menor o trajeto, maior o custo relativo do transporte. Aquele por quilômetro. É só comparar fretes de transporte de carga de Santos a São Paulo, com fretes de São Paulo a Manaus, Porto Velho, Belém, etc. E com veículos preservados. Ninguém desconhece a lastimável situação das nossas estradas.

E que nem condizem, considerando a sua extensão, bem como aquelas pavimentadas, com o tamanho e potencialidade do país. Em que estamos atrás de diversos países até menores do que o nosso. Em que as vias pavimentadas representam apenas 12% da malha rodoviária. O que é trágico, e aumentam o consumo de combustível, e o desgaste de peças gerais. Gerando manutenção desnecessária e contínua, com aumento extraordinário dos custos de transporte.

O país tem que se conscientizar de que é necessário mudar a matriz de transportes. E mais rápido do que temos feito nas últimas 2,5 décadas, desde a abertura econômica de 1990.

Precisamos reduzir o transporte rodoviário para uns 25/30%, no máximo. Utilizar os demais modos. Transformando o rodoviário no centro das atenções, aquela vedete que mencionamos. Aquela atuação nobre necessária à melhoria do nosso custo logístico.

Para isso, é fundamental darmos atenção aos terminais intermodais. Onde interagem os vários meios de transporte. Em que a carga é levada por determinado modo àquele ponto. E ai a carga é transferida a outro modo, ou outros. Em que se poderia praticar a intermodalidade e a multimodalidade, tão em falta no país, de forma adequada. Embora já creiamos, há algum tempo, que esta última, apesar da lei de 1998 e a regulamentação de 2000, seja natimorta. Com isso, fazendo com que a unimodalidade seja reduzida ao limite máximo de metade do que representa hoje. Ou seja, representando, no futuro, não muito distante, não mais do que um quarto da carga transportada pelas estradas brasileiras. Com isso, o custo logístico seria bastante amenizado.

Hoje, praticamente não os temos. Enquanto os EUA os têm, segundo já lido, às centenas. Em que teríamos a chance de reduzir a diferença entre os custos logísticos brasileiros e os norte-americanos. Que segundo se diz e escreve, custam 15-16% do PIB – produto interno bruto no Brasil. E cerca de 8-9% no grande irmão do norte. Claro, existem estudos com divergências de ambos os percentuais.

Mas, parece que neste país o que dá certo lá fora é execrado aqui. Nem sempre usamos o que já existe. Estamos sempre tentando reinventar a roda. Quando o mais simples é entender que ela já é perfeita. E simplesmente utilizá-la. Temos que entender que o que existe pode ser bom. E assim, adotar definitivamente. É claro que sempre se pode e deve melhorar qualquer coisa. Mas, não podemos mais partir do princípio de que temos que criar tudo. Não funciona, como não tem funcionado. E nem precisa ser gênio para perceber isso. Até nós já percebemos (sic).

Brasil, Brasil, quando acordarás do seu sono eterno em berço esplêndido? Pelo menos para a intermodalidade e a logística?

Revista Logística

Author: Samir Keedi

-Mestre (Stricto Sensu) e pós-graduado (Lato Sensu) em Administração pela UNIP-Universidade Paulista. -Bacharel em Economia pela PUC-Pontifícia Universidade Católica. -Profissional de comércio exterior desde março de 1972. -Especialista em transportes; logística; seguros; Incoterms®; carta de crédito e suas regras; documentos no comércio exterior; contratos internacionais de compra e venda. -Generalista em várias atividades em comércio exterior. -Consultor em diversos assuntos relativos ao comércio exterior. -Professor universitário de graduação e pós graduação desde 1996. -Professor e instrutor técnico desde 1996. -Palestrante em assuntos de comércio exterior e economia. -Colunista em jornais e revistas especializadas. -Autor de vários livros em comércio exterior. -Tradutor oficial para o Brasil do Incoterms 2000. -Representante do Brasil na CCI-RJ e Paris na revisão do Incoterms® 2010.

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