Brasil: buraco 2020

 

Há cerca de uma década vimos, quase solitariamente, apontando mazelas e descrevendo o país do futuro. Ceteris paribus, sem futuro aparente. Para ter um futuro será necessário mudar tudo. Da maneira como vamos, não haverá recursos para nada em 2020. Isso, claro, sob a descrença de todos que nos lêem e ouvem. Somos realistas, e a realidade está ai, à frente de todos, para quem quiser entendê-la, tarefa difícil no Brasil atual.

Temos ouvido que o país já tirou milhões de pessoas da pobreza encaixando-as na classe média. Que mais gente está comendo, e melhor. Está consumindo e o mercado consumidor é cada vez maior. Que mais gente está estudando, com milhões a mais nas universidades. Que o país está crescendo muito. Que nós é que não estamos vendo o que está acontecendo. Pois é. O que é a cegueira que interessa.

O problema é que tudo isso é falso, uma fantasia criada para iludir os incautos. Todos estão sendo iludidos e fica tudo por isso mesmo. Enxerga-se a árvore em detrimento da floresta. Podemos dizer que estão vigiando determinadas árvores, e estas não estão sendo mortas. Enquanto isso, a floresta está em pleno desmatamento. É esta exatamente a situação que estamos vivendo, senão vejamos.

Para começar, o país considera, através da SAE – Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência (da República), classe média quem tem renda familiar per capita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00 mensais. E esse contingente social é 54% da população, o maior do país. Se R$ 291,00 é valor para classe média, e uma família de quatro pessoas está nessa categoria tendo uma renda familiar de R$ 1.164,00 estamos mais em pânico do que nunca.

Obviamente, não há como uma família de quatro pessoas, com essa renda, menos de dois salários mínimos, ter casa, carro, estudar, se vestir bem, ter um convênio médico decente, etc. E, sem isso, não há como se falar em classe média, mesmo que baixa. Uma renda per capita de apenas um salário mínimo já não poderia, em nossa modesta opinião, ser considerada classe média num país com o nível de vida dos mais caros do planeta. Tudo nos EUA, por exemplo, custa bem menos que aqui, e lá a renda per capita é cinco vezes maior que a nossa.

As pessoas estão comendo e consumindo um pouco mais porque o país está lhes dando dinheiro a fundo perdido, via bolsa-esmola. Sem que façam algo pelo país. Enquanto isso, nossa infra-estrutura com portos, rodovias, ferrovias, etc., está destroçada. Nossa matriz de transporte é a pior do mundo. Todo este contingente poderia ser alocado para construir portos, rodovias, ferrovias, etc. E ganhando e consumindo mais, e com dignidade.

Nós investimos 0,49% do PIB – produto interno bruto em infra-estrutura. A China e a Rússia 5%. A Índia 4%. Acreditamos que todos ficariam mais felizes, e bem melhores financeira e economicamente, trabalhando pelo país. Bastaria haver investimento na área. Melhorando a infra-estrutura, ficaríamos mais competitivos e o emprego e consumo seriam ainda maiores. E levando benefícios à importante atividade de comércio exterior, em que não somos quase ninguém, com 1,3% do comércio mundial.

Estamos colocando mais gente nas universidades, mas sabemos a que preço. Com bom contingente sem a devida preparação básica para isso, já que o ensino fundamental é péssimo. Assim, o nível vai diminuindo, enquanto a quantidade de universitários e formados vai aumentando. Melhora a estatística e piora a cultura e educação.

No início do 2º semestre de 2012, duas matérias do jornal Folha de São Paulo tinham como título “Brasil: Rico ao investir, pobre ao educar” e “Entre os universitários, 38% não sabem ler e escrever plenamente”.  Nossos empregos não conseguem ser ocupados adequadamente. O que vai levando o país cada vez mais para o buraco 2020. Em olimpíada internacional em 2011, ficamos, em leitura, matemática e ciências, nas 53ª, 57ª e 53ª posições. A China, considerando Xangai, na 1ª posição em todas. A Coréia, que estava em situação pior que a do Brasil nos anos 70, está na 2ª posição em tudo.

O funcionalismo público aumentou significativamente nos 10 anos passados. E seus aumentos salariais foram bem maiores que os da sociedade “comum”, inflando mais ainda os gastos públicos.

Os desvios financeiros são recordes na história do país. E isso não tem como ser contestado. Sendo comprovado pela carga tributária, a mais elevada do mundo. Está, por ora, em 37% do PIB, e sem quase retorno. Era 13% em 1948 e 22% em 1989. E cresce todos os anos, retirando da população renda disponível, que deveria ir para o consumo. E não adianta querer citar alguns países europeus com carga tributária absoluta maior que a nossa. Lá retorna, o que a alivia e a torna menor. A nossa é a maior do mundo em termos relativos. E até absolutos, se tivermos que dar ao governo o suficiente para nos proporcionar, pelo menos, saúde, educação e segurança que não nos são dados com os impostos pagos. Nesse caso, em nossa opinião, ela está por volta de 45/50%, maior do mundo também em termos absolutos.

Para compararmos apenas com alguns países, nos EUA ela é de 24%, no Japão 28%, no Chile 18%, na Coréia 26%, na Suíça 30%, no Canadá 31% segundo a OCDE/IBPT 2009. E eles vivem bem com essas cargas tributárias.

Em face da nossa enorme, impagável e crescente dívida interna, que em abril/12 chegou a 2,7 trilhões de reais, pagamos em 2011 a bagatela de R$ 237 bilhões em juros em face da mais alta taxa de juros no mundo. E ela era de 89 bilhões em 1994, 1,1 trilhão em 2002 e 2,4 trilhões em 2010. E poderá ser, pelo andar da carruagem, ceteris paribus, entre 4 e 5 trilhões em 2020, praticamente um PIB – produto interno bruto.

Assim, só para ficarmos por aqui, em 2020 não haverá dinheiro para a bolsa-esmola, aposentadorias, juros e principal da dívida, para o funcionalismo, etc. A menos que a carga tributária continue crescendo para o nível de uns 50/60/70% ou mais. Assim, deixando nada para o consumo e crescimento da economia. Ou seja, o caos absoluto.

E tudo que está aqui não é fantasia, mas realidade, e está disponível a todos. E o que está por vir pode ser um futuro negro. Ou grafite, ceteris paribus.

Jornal Diário do Comércio de 06/09/2012

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Author: Samir Keedi

-Mestre (Stricto Sensu) e pós-graduado (Lato Sensu) em Administração pela UNIP-Universidade Paulista. -Bacharel em Economia pela PUC-Pontifícia Universidade Católica. -Profissional de comércio exterior desde março de 1972. -Especialista em transportes; logística; seguros; incoterms; carta de crédito e suas regras; documentos no comércio exterior; contratos internacionais de compra e venda. -Generalista em várias atividades em comércio exterior. -Consultor em diversos assuntos relativos ao comércio exterior. -Professor universitário de graduação e pós graduação desde 1996. -Professor e instrutor técnico desde 1996. -Palestrante em assuntos de comércio exterior e economia. -Colunista em jornais e revistas especializadas. -Autor de vários livros em comércio exterior. -Tradutor oficial para o Brasil do Incoterms 2000. -Representante do Brasil na CCI-RJ e Paris na revisão do Incoterms 2010.

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2 Comments

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    É doloroso que marquemos a missa de sétimo dia antecipadamente e todos os dias tenhamos que ouvir a marcha fúnebre na ingenuidade de que tudo vai melhorar e sem fazer esforço.

    Na minha humilde opinião, aqui cabe um mea máxima culpa e muita vergonha na cara.

    Excelente matéria, parabéns.

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